Há muito, na Grécia antiga , os primeiros pensadores ignoravam em tudo os temas relacionados ao homem. Os filósofos cosmogônicos ocupavam-se em tentar desvendar o elemento primordial, em outras palavras, buscavam conhecer o Ser que a tudo precedeu historicamente e elemento essencial de tudo o que existe. Anaxágoras, Anaxímenes, Thales de Mileto, entre outros.
Os Sofistas, senhores da retórica, criam no relativismo da verdade, assim nada era certo. De modo que as verdades amoldavam-se segundo as conveniências daqueles que custeavam a educação da juventude ateniense.
O problema central do pensamento filosófico consiste na Felicidade, uma vez que como já fora consignado, Deus fez o homem para participar de sua vida bem-aventurada e, esta é vida feliz. Ora, em que consiste a felicidade do homem?
Sócrates, pelo influxo provocador do brocado estampado nos umbrais do Oráculo de Delfos pôde dizer que “a vida sem reflexão não merece ser vivida”, porque o homem deve “Conhecer a si mesmo” para ser feliz. Seu método de conceitos e maiêutica, um misto de ironia e diálogo, valorizou as experiências já vividas dos seus interlocutores, de modo que o partejamento das idéias era um ato exclusivamente pessoal e caberia ao pensador simplesmente as funções da parteira: estimular o parto e acolher o nascente, a idéia.
Platão, o idealista, estabeleceu um abismo entre o mundo das idéias e o mundo sensível. Haveria uma hierarquia no mundo das idéias e um deus-fiturgo que a tudo criou, mas que não mantém. Assim cria que a felicidade do homem consistia na cultura das artes e na probidade para gerir a coisa pública, que conferiria ao homem a plenitude de vida .
Aristóteles, o grande categorizador das ciências, estabelece um caminho natural desde o mundo sensível ao mundo das idéias na brilhante afirmação de que nada chegaria à razão que antes não se lhe houvesse passado pelos sentidos. A alma do homem é eterna e a felicidade do homem consiste em reunir todas as suas capacidades, potencialidades e faculdades para uma única atividade: a contemplação do sumo bem . Os Padres da Igreja identificarão este sumo bem a Deus.
Nesse sentido, a felicidade do homem está perfeitamente vinculada à realidade divina. Recorde-se o antiqüíssimo brocado: “Cristo veio ao mundo para mostrar ao homem quem é Deus e mostrar ao homem quem é o próprio homem”.
Ainda, a escola hedônica ou epicurista diz que a felicidade do homem está no prazer, exclusivamente; os gnósticos, no conhecimento; e, os cínicos, na virtude. Sobre a última, pseudo-Dionísio, o areopagita, poeticamente relaciona que a aparência exterior transforma-se segundo a prática das virtudes, assim é belo o que vive virtuosamente e sua beleza naturalmente extravasará seu interior e inundará todo o seu ser.
Parece-nos, contudo, que apesar da milenar pregação da Igreja de que a felicidade não reside no tripé poder-prazer-possuir, tratados quando das tentações do Cristo, no deserto pelo demônio , uma grande parcela da humanidade segue cordeirizada, irracional, sob a égide do poder da mídia, da moda, da falácia, da mentira, da conveniência, do aborto, do usar e abusar do corpo humano, como coisa que o homem não tivesse dignidade ou não fosse filho, imagem e semelhança do Deus Altíssimo . Ainda usa-se o ser humano como meio de obtenção de vantagem, retendo-lhe o que é de direito, a justa retribuição pelo trabalho, o respeito. A sedução do tempo presente esvazia o homem de seu sentido enquanto homem, que é ser transcendente, com uma vida que vai além das contingências presentes e se projeta para além, para a eternidade.
A vocação natural do homem é a felicidade, e esta consiste na prática das virtudes, das bem-aventuranças, portanto. Pela prática das bem-aventuranças, sobretudo enumeradas no excerto do evangelho segundo S. Mateus , se haure que a vocação comum a todo homem é a Santidade . O homem existe para ser feliz e santo como o Pai Celestial é Santo , sacerdote , profeta e rei .
Entretanto, as seduções do tempo presente, a própria concupiscência remanescente do Pecado Original e as fraquezas humanas muitas vezes fazem-nos quedar à mediocridade de acreditar ser possível viver uma vida de comodidades, incoerente, alienada, guiada por imperativos de poder, prazer e possuir, vergonhosamente. Neste ponto houve decaído a mais sublime criação do Altíssimo, o homem, que existe para propósitos e atividades altas, nobres e santas .
Por um caminho reflexo compreende-se a incessante busca do homem por Deus. Ora, naturalmente, o homem tende às coisas elevadas, de modo que busca viver intensamente o tripé ao qual já bastante nos referimos. Nessa busca o que está em tela é o objetivo de ter as emoções invadidas por um sentimento de plenitude e imensidão. Veja-se, a semente de eternidade plantada no coração do homem o fará desejar perpetuar-se nos filhos, nas obras que realiza, no reconhecimento. Isso é salutar, contudo mire-se a justiça: cada coisa tem o seu devido lugar. O poder, o prazer e o possuir são elementos que fazem parte da realidade humana, os quais devem ser administrados com justiça. Aristóteles leciona a forma mediana de viver a virtude sob pena de pecar-se por excesso ou ausência . Por exemplo, coragem é uma virtude salutar; o covarde não tem coragem e o extremamente corajoso é temeroso, nada receia, de nada tem medo; o homem temperante é aquele que alcançou o senhorio de si mesmo, o ápice da maturidade, de modo que o intemperante é guiado pelos instintos de forma bestial, animalesca, o extremo da virtude gera um insensível. Ora, como dissemos, tais elementos não podem ser vividos levianamente. Não se critica poder, prazer e possuir, mas a forma desregrada e acintosa de se deixar seduzir e guiar por tais imperativos, bem como pelos instintos.
O coração do homem é qual poço sem fundo, certa vez disse o poeta, e só algo de muito valor e imensidão é capaz de preenchê-lo: amor. Deus é amor ! O homem busca nas coisas o próprio Deus, a perfeição, o infinito, o eterno, o Belo, o Amor. E por mais que se lhe diga estar em outras coisas, no íntimo de sua alma e no luzeiro de sua consciência estarão selados que a felicidade que se busca só se há de encontrar na liberdade dos filhos de Deus. Deus é amor!
Conversão é mudar a direção. A direção do homem é a eternidade, é sua vocação à felicidade, à vida, ao amor, à beleza, à perfeição, à bondade, à justiça, à unidade. Os distanciamentos conscientes ou inconscientes, naturalmente, clamam retorno. E os braços do Pai sempre estarão abertos para acolher o filho pródigo que retorna ao lar .
A própria conversão é dom do Espírito Santo, quando ilumina-nos a consciência e faz-nos contemplar com olhos espirituais nossa vocação divina, a santidade. O processo de conversão é um caminho infinito de evolução, sem medidas e só o próprio Deus e seu amado filho conhecerão este processo de cada um.
Nessa trilha, contamos com amigos espirituais que rogam por nós, os santos, que como nós, um dia viveram na terra e se tornaram heróis da virtude; podemos contar ainda com a ajuda do diretor espiritual que, em linhas gerais, é uma pessoa apta à contemplação das realidades presentes e eternas e a dar sempre um direcionamento com base no Cristo para a vida prática, pode ser ou não o próprio confessor. A consciência da nossa vocação sublime sempre cobrará de nós uma maior entrega em termos de coerência, fidelidade, generosidade e doação.
Abraão foi levado por Deus a renunciar uma vida de conforto e foi para onde Deus o enviou e recebeu os bens eternos, segundo a promessa do Pai. Foi preciso que o povo de Israel caminhasse “em círculos” no deserto para chegar à terra prometida para que morresse toda a geração que outrora adorou o bezerro de ouro e entrasse na Terra Prometida um povo santo e purificado da idolatria. Jonas teve de ter o navio submergido e sido engolido pela baleia no caminho de Társis, para que finalmente chegasse a Nínive para cumprir a vontade de Deus. Israel tinha por rei Saul, que desonrou a Deus e este mandou Samuel ungir a Davi para mudar o rumo do povo. Davi se converteu após a admoestação do profeta Natã, veja-se o salmo 50, o miserere. Por inúmeras vezes propôs Deus alianças ao povo através dos profetas a fim de reconciliar o homem com Deus . Todo o pecado é contra si mesmo, contra a sociedade e contra Deus. Finalmente, Jesus Cristo mudou o rumo da história, convertendo-a. Entre as personalidades do Novo Testamento, Paulo teve o rumo da vida mudado desde sua queda em Damasco; Pedro, Tiago, João e André eram pescadores e mudaram de vida; Mateus, cobrador de impostos.
Um jovem que gostava de teatro e de filosofia, João Paulo II; padres recém formados cheios de inspirações, São João Bosco, São Josemaria Escrivá; Santo Agostinho, convertido pela pregação de Santo Ambrósio. Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Assis.
Nossa vida é um mistério que está escondido em Deus, nosso Senhor. A escola da conversão faz-se entre os sacramentos da penitência e eucaristia e requer do discípulo bastante empenho para trilha a nova estrada, quando se decide pela vida, integralmente. É assim que se dá um verdadeiro pentecostes pessoal em cada um de nós. Quando cientes da nossa vocação à felicidade, que é Deus, que é Amor, trilhamos uma caminho coerente com essa vocação-eleição e vocação-escolha. É o Espírito Santo que intercede por nós, pois não sabemos orar como convém. É ele quem cria no homem a intimidade com Deus através de seus sete dons: Sabedoria, Inteligência, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus ; através dos carismas, criando em nós seus frutos: caridade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência e castidade .
Tratar da conversão urge, sobretudo, porque é um movimento autônomo que concebe uma experiência pessoal. E, nesse sentido, o Espírito Divino é o companheiro de estrada que consola, anima e guia em meio às dificuldades da vida, é a alma da Igreja, é o Espírito Criador.
Oh, vinde, Espírito Criador,
As nossas almas visitai
E enchei os nossos corações
Com vossos dons celestiais.
Vós sois chamado o Intercessor,
Do Deus excelso o dom sem par,
A fonte viva, o fogo, o amor,
A unção divina e salutar.
Sois doador dos sete dons,
E sois poder na mão do Pai,
Por ele prometido a nós,
Por nós seus feitos proclamais.
A nossa mente iluminai,
Os corações enchei de amor,
Nossa fraqueza encorajai,
Qual força eterna e protetor.
Nosso inimigo repeli,
E concedei-nos vossa paz
Se pela graça nos guiais
O mal deixamos para trás.
Ao Pai e ao Filho Salvador
Por vós possamos conhecer.
Que procedeis do seu amor
Fazei-nos sempre firmes crer.





























